O Brasil atravessa uma transição demográfica sem precedentes, e Tiago Oliva Schietti é um dos empresários do setor cemiterial e funerário que acompanha de perto os efeitos concretos dessa mudança sobre a gestão de cemitérios e a organização dos serviços de assistência familiar. Segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgadas em 2024, o país contará com aproximadamente 58 milhões de pessoas acima de 60 anos até 2030, representando cerca de 25% da população total. Trata-se de uma virada estrutural que altera, de forma irreversível, o volume e o perfil da demanda por serviços funerários no país.
Interessado em saber mais? Confira a seguir!
O que os dados demográficos revelam sobre o setor?
A longevidade crescente não implica apenas maior expectativa de vida. Ela reconfigura o ritmo de mortalidade, a origem geográfica das demandas e o tipo de serviço esperado pelas famílias. Em 2023, o Brasil registrou cerca de 1,5 milhão de óbitos, número que especialistas em demografia projetam que pode ultrapassar 2 milhões anuais ainda na próxima década, com concentração expressiva nas faixas etárias acima de 70 anos.
Para o mercado funerário, essa curva ascendente não é apenas um dado estatístico. É um sinal de que a infraestrutura cemiterial, a capacitação de equipes e os modelos de planejamento precisam ser revistos com urgência. Cemitérios que operam com capacidade próxima ao limite, em regiões metropolitanas com envelhecimento acelerado, já enfrentam pressão sobre espaços disponíveis, processos de sepultamento e diversidade de modalidades oferecidas, como a cremação, que cresceu mais de 300% no Brasil entre 2010 e 2023, de acordo com dados da Acembra.
Por que o planejamento funerário antecipado ganha relevância?
A partir do que indica Tiago Oliva Schietti, a mudança demográfica empurra uma questão que o setor tardou a encarar com seriedade: a necessidade de educar a população sobre o planejamento funerário como decisão financeira e familiar responsável. Países como Japão e Estados Unidos, que já vivem estágios mais avançados de envelhecimento, desenvolveram mercados robustos de planos funerários antecipados, nos quais as famílias contratam serviços com décadas de antecedência, reduzindo o impacto emocional e financeiro no momento do luto.
No Brasil, o setor ainda opera majoritariamente em regime reativo, ou seja, o contato da família com a funerária ocorre, em geral, após o falecimento. Esse modelo, além de limitar o planejamento operacional das empresas, coloca as famílias em situação de vulnerabilidade emocional justamente quando precisam tomar decisões complexas. A expansão do planejamento antecipado é, portanto, uma resposta tanto às novas demandas do envelhecimento quanto à necessidade de profissionalização do mercado.

Infraestrutura cemiterial diante de um país que envelhece
O crescimento da população idosa não é uniforme no território nacional. Regiões Sul e Sudeste concentram os maiores índices de envelhecimento, mas estados do Nordeste, com melhora progressiva nos indicadores de saúde, também apresentam aumento relevante na expectativa de vida. Essa heterogeneidade, segundo Tiago Oliva Schietti, exige que cemitérios e grupos funerários pensem em estratégias de expansão e distribuição de capacidade que levem em conta as especificidades regionais.
A gestão de espaços memorialísticos, por exemplo, precisa contemplar tanto o aumento de demanda por jazigos e columbários quanto a crescente preferência por ambientes mais acolhedores e naturalizados. O modelo de cemitério-parque, que integra paisagismo, áreas de convivência e soluções de memorialização contemporâneas, responde a esse duplo movimento: atende à demanda crescente e ressignifica a experiência do luto para famílias de diferentes perfis culturais.
Tecnologia e digitalização como respostas à escala
Conforme aponta Tiago Oliva Schietti, a tecnologia deixou de ser um diferencial e passou a ser condição operacional para cemitérios que pretendem absorver o crescimento da demanda sem comprometer a qualidade do atendimento. Sistemas de gestão cemiterial, digitalização de registros de sepultamento, plataformas de agendamento e ferramentas de memorialização digital são recursos que permitem escalar operações sem multiplicar custos na mesma proporção.
A digitalização dos registros históricos, por exemplo, permite que famílias acessem informações sobre sepultamentos de décadas anteriores, ampliando o vínculo afetivo com o espaço cemiterial e fortalecendo a cultura da memória. Em mercados mais maduros, esse tipo de serviço compõe um portfólio de relacionamento que fideliza famílias ao longo de gerações.
Governança e regulação em um mercado em expansão
O crescimento acelerado do setor funerário traz consigo a necessidade de marcos regulatórios mais robustos. A legislação funerária brasileira, historicamente fragmentada entre municípios e estados, apresenta lacunas que dificultam a padronização de serviços e a proteção do consumidor. Com o aumento do volume de óbitos projetado para as próximas décadas, a pressão por regulamentação nacional mais coesa tende a crescer.
Sob a perspectiva de Tiago Oliva Schietti, a profissionalização do mercado funerário é indissociável de avanços em governança. Empresas que investem em conformidade regulatória, transparência de preços e protocolos de atendimento humanizado constroem vantagens competitivas sustentáveis, sobretudo em um setor no qual a confiança da família é o ativo mais crítico.
O envelhecimento populacional não é uma ameaça ao setor funerário, mas um convite urgente à modernização. Cemitérios e funerárias que compreenderem essa transformação como oportunidade de reposicionamento estarão melhor preparados para atender, com excelência e sensibilidade, a uma sociedade que envelhece e que, cada vez mais, exige que o último serviço prestado à sua família seja também o mais digno.
Para conhecer soluções de gestão e planejamento voltadas ao setor funerário, vale acompanhar as publicações e iniciativas da Acembra, associação que reúne e orienta profissionais do segmento em todo o Brasil.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
