Juros altos: a verdade que poucos revelam sobre quem realmente é afetado

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez 5 Min de leitura
Pedro Daniel Magalhães

Existe uma percepção generalizada de que juros altos afetam qualquer empresa da mesma forma, mas essa leitura simplifica demais um cenário bem mais desigual, na avaliação de Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação em finanças e crédito estruturado. Com a Selic mantida em patamar elevado, entre 12% e 14% ao ano, conforme projeções recentes do mercado, o efeito sobre o caixa das empresas varia enormemente conforme o setor, o modelo de negócio e o grau de alavancagem de cada companhia. Separar mito de realidade nesse tema ajuda o empresário a entender de fato o que precisa vigiar no próprio negócio.

Por que os juros altos não afetam todas as empresas da mesma forma?

A resposta está na forma como cada negócio se financia e recebe. Empresas que vendem diretamente ao consumidor final, recebendo à vista ou via cartão, tendem a sentir menos o impacto imediato, porque conseguem embutir parte do custo financeiro no preço final. Já pequenas e médias empresas que fornecem para outras companhias, operando com prazos de recebimento entre trinta e noventa dias, têm menos poder de negociação e ficam mais expostas ao custo do capital.

O fator decisivo, como pontua Pedro Magalhães, não é o tamanho da empresa isoladamente, mas a combinação entre prazo de recebimento, nível de alavancagem e dependência de capital de giro financiado. Duas empresas do mesmo porte, em setores diferentes, podem ter experiências completamente distintas diante do mesmo patamar de juros.

Quais negócios sentem mais o peso do crédito caro?

Setores intensivos em capital, com retorno de investimento mais lento, como construção civil e produção de bens duráveis, costumam sofrer mais, já que dependem de financiamento de longo prazo para sustentar operações de maior escala. Modelos com margens apertadas e prazo estendido de retorno sobre o capital investido ficam particularmente vulneráveis quando a demanda desacelera ao mesmo tempo em que o crédito encarece.

Micro e pequenas empresas, de forma geral, sentem esse efeito com mais intensidade porque dependem mais de financiamento externo, oferecem menos garantias e pagam spreads mais altos do que empresas de maior porte, segundo avaliação recente do Sebrae sobre o cenário.

Existem negócios que se saem bem mesmo com juros elevados?

Sim, e essa é a parte que mais contraria a percepção geral. Empresas com forte geração de caixa, baixa alavancagem e receita recorrente tendem a ser vistas como opção de maior estabilidade justamente em ciclos de juros altos, o que em alguns casos até sustenta ou eleva seu valor de mercado. Negócios com estoque enxuto e capital de giro leve sofrem menos com o custo do dinheiro, o que cria vantagem competitiva frente a concorrentes mais fragilizados pelo crédito caro.

Pedro Daniel Magalhães
Pedro Daniel Magalhães

É justamente esse grupo de empresas, organizadas financeiramente e com previsibilidade operacional, que conseguem negociar melhores condições de crédito mesmo em um ambiente restritivo, porque representa menor risco percebido para quem empresta ou investe, observa o executivo e advisory da área de finanças Pedro Daniel Magalhães.

Como os juros altos influenciam decisões de investimento?

Projetos de expansão, aquisição de máquinas, abertura de novas unidades e operações de fusão e aquisição exigem taxa de desconto compatível com o custo de capital vigente. Quanto mais alta a Selic, maior o custo de oportunidade de qualquer investimento, o que reduz naturalmente o número de projetos aprovados sob critérios de retorno ajustado ao risco.

Esse efeito explica por que muitas empresas optam por postergar decisões de investimento em ciclos de juros elevados, priorizando preservação de caixa em vez de expansão, mesmo quando a operação segue saudável no curto prazo.

O que fazer para proteger o caixa nesse cenário?

A prioridade em ambientes de juros altos deve ser preservação de caixa, redução do custo médio de capital e adoção de instrumentos que acompanhem o ciclo operacional da empresa, como antecipação de recebíveis lastreada em direitos creditórios verificáveis, geralmente mais eficientes do que linhas de crédito tradicionais sem garantia.

Revisar prazos com fornecedores, acompanhar margens de perto e evitar dívidas longas sem retorno claro completam o conjunto de ajustes que, na visão de Pedro Daniel Magalhães, fazem diferença real na travessia de um ciclo de juros elevados, independentemente do setor em que a empresa atua.

 

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