Crise envolvendo Hugo Motta ganha novo capítulo às vésperas da reta final das eleições na Paraíba

Roman Kireven
Por Roman Kireven 8 Min de leitura

Conflito político envolvendo o presidente da Câmara se intensifica na Paraíba durante a fase decisiva da disputa eleitoral, ampliando as atenções sobre alianças e articulações no Estado.

A uma semana e meia da votação para o Governo do Estado, marcada para 4 de outubro, a política paraibana amanheceu nesta terça-feira (22) sob o impacto de novas revelações da Polícia Federal sobre a proximidade entre o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Ao mesmo tempo, a disputa estadual ganhou um novo capítulo jurídico, com a coligação de um dos candidatos ao governo pedindo à Justiça Eleitoral acesso aos bastidores de uma pesquisa que deve ser divulgada ainda hoje.

PF revela proximidade entre Vorcaro e Hugo Motta

De acordo com apuração da Polícia Federal, o acesso ao celular de Daniel Vorcaro, que continha mais de 17 mil áudios e quase 33 mil arquivos, revelou mensagens que mostram uma relação de forte proximidade entre o banqueiro e o deputado paraibano, que hoje ocupa a presidência da Câmara. O caso é apontado por analistas políticos locais como um dos pontos centrais de uma semana decisiva para a política do estado, justamente no momento em que os candidatos ao governo intensificam a campanha na reta final.

Entre os episódios que voltaram a circular está uma conversa registrada em fevereiro de 2025, na qual o dono do Master é questionado sobre a relação com o deputado paraibano e responde de forma descontraída, tratando o parlamentar como um aliado próximo. A investigação da Polícia Federal também apontou que Vorcaro teria custeado hospedagem em um hotel de Lisboa para Motta e para o senador Ciro Nogueira (PP-PI), episódio que já havia sido admitido publicamente pelo próprio presidente da Câmara em ocasiões anteriores.

Outro ponto que ganhou repercussão é um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões obtido junto ao Master, em março de 2024, pela cunhada de Hugo Motta, Bianca Medeiros, segundo informações divulgadas pelo jornal Folha de S.Paulo. De acordo com essas apurações, o crédito teria sido usado para a compra de um terreno em João Pessoa. Motta não é formalmente investigado no âmbito do caso Master, mas o assunto tem sido tema recorrente de questionamentos desde que o escândalo veio à tona, após a liquidação do banco pelo Banco Central, no fim do ano passado.

O reflexo desses episódios na política estadual não é apenas simbólico. Como Hugo Motta é uma das principais lideranças políticas da Paraíba e mantém influência direta sobre alianças locais, o desgaste em torno de seu nome tende a repercutir nas articulações dos candidatos que disputam o Governo do Estado, ainda que nenhum deles esteja diretamente envolvido na investigação.

Coligação de Cícero Lucena pede acesso a dados da pesquisa Quaest

Em meio a esse cenário, a coligação liderada pelo ex-prefeito de João Pessoa e candidato ao Governo da Paraíba, Cícero Lucena (MDB), entrou com um pedido no Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) para ter acesso aos dados de controle, verificação e fiscalização da segunda pesquisa Quaest sobre a disputa estadual, que deve ser divulgada ainda nesta terça-feira pela TV Cabo Branco. A coligação reúne também os candidatos ao Senado Veneziano Vital do Rêgo e André Gadelha, ambos do MDB.

O pedido solicita que o instituto de pesquisa disponibilize documentos relacionados à coleta dos dados, a identificação dos responsáveis técnicos pelo levantamento, as planilhas individuais de resposta ou arquivos equivalentes, o relatório final entregue ao contratante e o modelo do questionário aplicado aos entrevistados. O processo está sob relatoria do juiz Bianor Arruda Bezerra Neto, na Justiça Eleitoral paraibana.

Esse tipo de movimentação é relativamente comum em disputas eleitorais acirradas, quando campanhas buscam garantir transparência sobre a metodologia usada em pesquisas que podem influenciar a percepção pública sobre o andamento da corrida eleitoral. A divulgação de pesquisas em estados como a Paraíba costuma ganhar peso adicional em anos de eleição para o governo estadual, já que impacta diretamente o fôlego das campanhas na fase final.

A reta final da disputa pelo Governo do Estado

A corrida para o Palácio da Redenção reúne três nomes principais. O governador Lucas Ribeiro, do PP, tenta a reeleição em uma federação que reúne PP e União Brasil, além de contar com apoio de partidos como Republicanos, PSB e a federação formada por PT, PV e PCdoB. Cícero Lucena, do MDB, deixou a Prefeitura de João Pessoa para concorrer ao governo estadual, com o apoio de PSD, Avante e da federação PSDB/Cidadania. Já Efraim Filho, senador pelo PL, também disputa o cargo, com Nayana Pontes como vice na chapa.

Os seis candidatos ao Governo da Paraíba tiveram agenda de compromissos de campanha nesta segunda-feira (21), intensificando a mobilização de eleitores na reta final antes do primeiro turno, previsto para o dia 4 de outubro. Caso nenhum candidato atinja a maioria dos votos válidos, um eventual segundo turno está marcado para 25 de outubro.

Paralelamente à disputa pelo governo estadual, a Justiça Eleitoral da Paraíba já contabiliza um número expressivo de denúncias relacionadas a possíveis crimes eleitorais neste ano. Segundo dados do TRE-PB, o estado já soma quase 500 denúncias, um volume que reflete tanto a intensidade da disputa quanto o maior monitoramento da fiscalização eleitoral nas últimas semanas de campanha.

O que ainda pode mudar até a votação

Com a divulgação da nova pesquisa Quaest prevista para esta terça-feira, a expectativa é que o resultado sirva de termômetro para o estágio final da disputa, especialmente diante do pedido de fiscalização feito pela coligação de Cícero Lucena. Institutos de pesquisa têm liberdade para divulgar levantamentos que, historicamente, influenciam tanto a percepção do eleitorado quanto as estratégias de reta final adotadas pelas campanhas.

O episódio envolvendo Hugo Motta, embora não trate diretamente da disputa estadual, deve continuar repercutindo nos próximos dias, já que o deputado é uma referência política de peso na Paraíba e qualquer desdobramento na investigação da Polícia Federal tende a ser acompanhado de perto pelos bastidores da campanha. Até o fechamento desta matéria, a assessoria de Hugo Motta não havia se manifestado sobre as novas revelações trazidas a público nesta segunda-feira e madrugada de terça.

Nos próximos dias, o calendário eleitoral paraibano deve concentrar ainda mais atenção, com novas divulgações de pesquisas, agendas de campanha e possíveis decisões da Justiça Eleitoral sobre os pedidos já protocolados, movimentando o cenário político do estado até a votação do próximo dia 4 de outubro.

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