Centro instalado em João Pessoa vai abrigar equipamentos de 20 e 100 qubits em parceria com instituições chinesas, com previsão de operação ainda neste ano
A Paraíba caminha para se tornar o primeiro estado brasileiro, e também o primeiro território latino-americano, a contar com computadores quânticos plenamente operacionais. O Centro Internacional de Computação Quântica da Paraíba, batizado de CIQuanta-PB, foi oficializado em 19 de junho pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), durante cerimônia em João Pessoa que reuniu a ministra Luciana Santos e o governador Lucas Ribeiro.
O centro será instalado na Estação Ciência Cabo Branco, também conhecida como Estação das Artes Luciano Agra, em um espaço com mais de 5,1 mil metros quadrados de área construída. O investimento previsto ultrapassa R$ 150 milhões e contempla dois computadores quânticos, com capacidades de 20 e 100 qubits, além de sistemas criogênicos, salas blindadas e estruturas de estabilização necessárias para o funcionamento desse tipo de tecnologia.
Parceria internacional e cronograma de instalação
O projeto é fruto de cooperação entre o governo estadual, o governo federal e instituições chinesas, com destaque para a estatal CETC 54, responsável pelo fornecimento dos equipamentos. O cronograma previa treinamento de pesquisadores brasileiros no centro chinês entre junho e julho, chegada dos equipamentos a partir de agosto e montagem final pela equipe nacional até outubro deste ano, o que coloca a Paraíba na etapa final de um processo que vem sendo construído desde o ano passado.
Segundo o secretário de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior, Cláudio Furtado, o CIQuanta está estruturado a partir de três frentes estratégicas: o desenvolvimento de cálculos em áreas que hoje só são viáveis com o uso de computação quântica, a transferência de tecnologia para que a Paraíba desenvolva seus próprios equipamentos no futuro, e a formação de recursos humanos, com a vinda de pesquisadores internacionais para capacitação de equipes brasileiras.
Aplicações práticas da tecnologia
Na prática, a computação quântica pode ser aplicada no desenvolvimento de novos medicamentos, na previsão climática, na segurança de dados, na logística, na indústria e em soluções de inteligência artificial. O centro funcionará em regime de 24 horas por dia, sete dias por semana, com administração compartilhada entre os governos estadual e federal, e permitirá acesso remoto via plataforma em nuvem para pesquisadores de todo o país, o que amplia o alcance do projeto para além das fronteiras paraibanas.
O governo federal também lançou, no mesmo evento de junho, uma residência tecnológica conectada ao CIQuanta, com investimento estimado em R$ 20 milhões ao longo de 36 meses. A iniciativa vai oferecer 156 bolsas de estudo e contará com equipe técnica multidisciplinar, reforçando a aposta na formação de talentos para a área de tecnologias quânticas no país.
Questionamentos sobre a parceria chinesa
A presença da estatal chinesa CETC 54 nos projetos tecnológicos instalados na Paraíba, que incluem também o radiotelescópio BINGO, gerou repercussão internacional. Em março deste ano, um relatório do Congresso dos Estados Unidos classificou o BINGO como componente de uma suposta rede de inteligência chinesa no Hemisfério Sul, citando o papel da CETC 54 na fabricação de estruturas físicas de ambos os projetos. A empresa consta na lista de restrições do Departamento de Comércio dos EUA, que limita o fornecimento de tecnologia norte-americana à companhia sem licenças especiais.
O governo da Paraíba e a coordenação científica dos projetos, que envolve instituições como a USP e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), defendem o caráter estritamente científico das iniciativas. Entre 2023 e 2025, o MCTI destinou R$ 513,5 milhões para projetos científicos no estado, valor quase três vezes superior ao registrado entre 2019 e 2022, o que evidencia a escala do investimento federal direcionado à Paraíba nesse período.
Campina Grande reforça vocação tecnológica do estado
O avanço do CIQuanta se soma a outras iniciativas que consolidam a Paraíba como polo de inovação no Nordeste. Campina Grande, segunda maior cidade do estado, foi reconhecida por lei estadual como Capital Estadual da Ciência e Tecnologia, título que reflete décadas de produção científica ligada à Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), instituição que ocupa o segundo lugar no ranking de depositantes residentes de patentes do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com 101 pedidos registrados.
Com a chegada dos equipamentos prevista para as próximas semanas, o CIQuanta-PB deve se tornar uma referência não apenas científica, mas também de turismo tecnológico, já que o projeto prevê áreas abertas ao público para visitação e divulgação do conhecimento sobre computação quântica, aproximando a população paraibana de uma tecnologia ainda restrita a poucos países no mundo.
Fontes:
Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI)
ConvergênciaDigital
Movimento Econômico
