Por que as primeiras lições moldam nossa identidade de forma tão profunda?

Roman Kireven
Por Roman Kireven 5 Min de leitura
Alfredo Moreira Filho

Ao despedir a filha mais velha, mandada aos oito anos para estudar na casa de um tio em outra cidade, o pai plantou uma roça de piaçaveiras e avisou que ela seria adulta quando aquelas palmeiras começassem a produzir. A piaçaveira leva cerca de vinte anos para dar a primeira safra. O gesto, registrado em um livro de memórias, diz em uma frase o que narrativas de origem costumam levar capítulos para explicar.

É o caso de Alfredo Moreira Filho, fundador do Grupo Valore+, que reuniu em “Pequenas Histórias e Algumas Percepções” episódios da infância no sul da Bahia. A separação precoce dos pais aparece ali sem retoque de nostalgia. O que sustenta o relato não é a saudade da roça, e sim o cálculo que levou uma mãe com poucos anos de escola primária a espalhar doze filhos por casas de parentes em cidades distintas.

Por que a primeira lição pesa mais que as seguintes?

Quem aprende algo pela primeira vez não tem com o que comparar. O episódio inaugural ocupa sozinho a categoria inteira e, por isso, vira régua. Adultos acumulam dezenas de casos de perda ou de injustiça e distribuem o peso entre eles, o que suaviza cada um. Quem viveu um só carrega esse caso único como definição do que a palavra significa.

A pesquisa em memória autobiográfica descreve a lombada de reminiscência: adultos recordam mais eventos da segunda e da terceira décadas de vida do que de qualquer outro período, fenômeno associado à formação da identidade. Episódios muito anteriores sobrevivem por outra via. Alfredo Moreira Filho reconstrói cenas dos seis e sete anos porque elas foram recontadas em mesa de família décadas antes de chegarem ao papel.

O que separa a lição herdada do preceito decorado?

Numa casa sem escola, sem energia elétrica e sem água encanada, não havia como ensinar o valor do estudo por discurso. O que havia era uma mãe alfabetizando os filhos com o bê-á-bá e a tabuada e, em seguida, abrindo mão da presença deles um a um. A lição chegou junto com a fatura, e foi a fatura que a tornou inesquecível.

Aí está a diferença que quase nenhum manual de educação enuncia. Preceito decorado é o que se ouve; lição herdada é o que se vê custar caro a alguém. Na descrição do autor, a decisão da mãe pareceu castigo à época e só muito depois se revelou planejamento. Sem esse intervalo entre a dor e o entendimento, não há lição, há apenas ordem obedecida.

Quando a origem contada vira mito fundador

Toda família tem a história do parente que chegou com uma mala e nada mais. Repetida o bastante, ela deixa de descrever e passa a explicar: o que veio depois vira consequência necessária daquele começo. O problema é o que some no caminho. Somem o acaso, os parentes que fizeram o mesmo esforço sem o mesmo desfecho e as decisões que só pareceram acertadas em retrospecto.

Existe um teste prático para saber se a narrativa resistiu. Verifique se ela ainda guarda as cenas que não coroam ninguém. Entre os episódios que Alfredo Moreira Filho registra, está a chegada ao Amazonas recém-formado, quando percebeu que o diploma tinha pouca serventia prática naquele contexto e precisou reaprender do zero. Origem que só produz vitória não é origem, é publicidade retroativa.

O que uma origem bem contada oferece a quem não a viveu?

Nenhum neto herda a roça, a escassez ou a viagem de canoa. O que pode atravessar gerações é outra coisa, e bem mais útil: o critério com que aquelas decisões foram tomadas. Por isso vale ler narrativas de origem, procurando a decisão e o preço pago por ela, nunca a moral anunciada no fim do capítulo. A moral envelhece rápido; o critério, não.

As primeiras lições não valem por serem primeiras. Valem porque foram tomadas sem repertório, sem rede e sem garantia de acerto, que é exatamente a condição de quem decide algo importante em qualquer idade. Uma narrativa de origem bem contada não entrega um passado bonito. Entrega um método de escolher no escuro, e esse método continua servindo a quem nunca viu a fazenda.

 

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